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  Tecnologia digital  
     
 
 
     
 

Autor: Rodrigo Arcanjo
Local: Ônibus Terminal Vila Carrão
Upload: 08/04/2013
Câmera: Nokia Asha 303

Reflexão:

É perceptível a atual dependência da tecnologia digital. Pergunta-se, entretanto, quais os impactos de uma cultura, cujos valores trancam a pessoa em seu próprio universo. Interpreta-se a realidade, consome-se e se distrai a partir de um espaço sempre plugado, hiperconectado e movido em redes, mas que talvez intensifique os sentimentos de dependência e solidão. Trata-se de uma compulsão de "informação" e de hipercomunicação. Quem não conhece alguém que deixa de realizar suas responsabilidades profissionais, desfrutrar de momentos de lazer ou que opta somente por ter relacionamentos com pessoas "onlines"?

Ressalta-se, mesmo assim, que não se pode afirmar que o uso exagerado da tecnologia é a causa de patologias. Pode-se, no entanto, analisar o uso exagerado como um sintoma, ou seja, associá-lo, por exemplo, com um quadro de depressão, fobia social ou outros transtornos. Vale lembrar que um sintoma surge como uma expressão simbólica inconsciente, já que o psiquismo não consegue elaborar conteúdos de uma forma mais produtiva. Investiga-se, neste caso, a serviço do que tal manifestação está. A formação de um sintoma surge em resposta a um compromisso entre impulsos, sentimentos ou ideias inconscientes que buscam expressão e as defesas psicológicas que se contrapõem a eles, procurando eliminá-los.

Neste sentido, a dependência pode surgir como uma estratégia mental para reduzir as incongruências, conflitos e dificuldades do indivíduo, passando, quem sabe, uma sensação de conexão, proteção, acolhimento, aceitação, valorização, amparo e pertencimento. Mas antes de patologizar ou categorizar qualquer comportamento, é fundamental, mais uma vez, avaliar o sentido que tal elemento possui na vida daquela determinada pessoa.

Em termos psicossociais, tudo ocorre, na contemporaneidade, em alta velocidade, isto é, com muita pressa, intolerância e instantaneidade, embora não se possa, é claro, satisfazer os desejos humanos neste mesmo ritmo (frenético). Surge, então, um apelo intenso por gratificações transitórias e, em alguns casos, ilusórias e até prejudiciais. Porém, satisfazê-las em sua totalidade é, de fato, algo impossível, inalcançável. Frustrados, vamos à busca compulsiva (repetitiva) por objetos que nos prometem certos prazeres. Logo, ficamos sempre à distância de uma relativa quietude, repouso ou aceitável satisfação, uma vez que nos encantamos com imagens investidas de muita fantasia e idealizações. Pelo excesso, talvez sempre fique faltando algo (insuficiência), do mesmo modo que, pela falta, constitui-se uma relação (com a vida, objetos ou pessoas) de muito vazio. Em ambos os casos, identificam-se comportamentos incompatíveis com o cotidiano de uma existência mais produtiva.

O que ainda se identifica na prática é uma epidemia assustadora e crescente de ignorância. Soluções tecnológicas que, de fato, emburrecem as pessoas*, que não conseguem se fixar em algo, afastar-se das superficialidades/futilidades e, principalmente, parar para refletir sobre a própria vida e sobre a realidade em que estão inseridas. Fora deste universo digital, também temos à disposição uma infinidade de substâncias químicas para anestesiar o sofrimento ou esquecê-lo. Um mal-estar social que se afoga com cerveja, vodka, whisky, vinho, tequila, Ice, Big Apple, energéticos ou outras substâncias psicoativas tão procuradas e veneradas.

Mesmo assim, há diversas oportunidades e recursos cognitivos. O que falta é saber (ou ter recursos internos para) priorizar e manter o equilíbrio. Difícil, todavia, para algumas pessoas se desconectarem totalmente por um segundo sequer. O que mais vemos são seres individualistas, narcisistas, "livres" e "antenados", mas que se amontoam por meio de cabos ou, melhor ainda, via Wi-Fi - ou seja, uma Wireless Fidelity ou "fidelidade sem fio" que conecta e, paradoxalmente, afasta as pessoas.

Diante dos encantos dos blogs, podcasts** e Facebook, identificam-se temáticas que, em termos gerais, aproximam-se do fútil, da fantasia, do erotismo ou da ética materialista. O sujeito domina a tecnologia digital, mas não tem conteúdo. Demonstra um amor desmedido pela própria imagem, embora revele uma identidade esfacelada e enfrente sentimentos de vazio – o que caracteriza um narcisismo dessubstanciado. Nesta sociedade depressiva (SELIGMANN-SILVA, 2006), enfrenta-se o clima de aprisionamento e opressão, a degradação dos relacionamentos, os valores que ressaltam uma competitividade e flexibilidade doentias, a insuficiência inabalável (“neurose de excelência” - AUBERT e GAULEJAC, 1981, apud SELIGMANN-SILVA, 2006), o culto à velocidade (só há espaço para as coisas rápidas e enxutas), a mudança ininterrupta que institui uma superficialidade degradante (SENNETT, 1999) e, entre outros fatores, o descomprometimento, a falta de reflexão e a superficialidade (não há tempo para se fixar em algo). O sujeito constrói sua vida nos bastidores da aparência, embora poucos percebam o lado encoberto, oculto, que sustenta seu modo de pensar, sentir e agir.

Sem dúvida, os paradigmas da comunicação foram vencidos. Questiona-se, contudo, se há ou não um esvaziamento da subjetividade para alimentar máquinas que sustentam a existência de algumas pessoas. Poucos percebem, por exemplo, que em uma família, onde há inúmeras histórias, sonhos e projetos de vida, se acabar a luz, por exemplo, todos têm que dormir. O que fazer sem internet, novelas, filmes, fofocas, bundas e desgraças?

Rodrigo Arcanjo dos Santos - Psicólogo Clínico (CRP 06/97030), Professor, Escritor e Expositor.

* Mark Bauerlein, professor da Universidade Emory, em Atlanta, autor do livro "The dumbest generation: How the digital age stupefies young americans and jeopardizes our future" (A mais burra das gerações: como a era digital esta emburrecendo jovens americanos e ameaçando nosso futuro) e ex-diretor de Pesquisa e Análise na Fundação Nacional para as Artes, de acordo com Patrícia Campos Mello, WASHINGTON - O Estadao de S.Paulo (02/06/08).

** Arquivo eletrônico de áudio/vídeo utilizado para transmitir material jornalístico, músicas, entre outros.

 
     
 
 
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